Após meses de preparação, a Missão Análoga de Marte de Monsaraz, liderada pela Universidade de Aveiro (UA) na pessoa da investigadora Slavka Carvalho Andrejkovicová, foi um sucesso! Integrada no programa internacional World’s Biggest Analog (WBA), promovido pelo Fórum Espacial Austríaco (OeWF), decorreu entre 13 e 25 de outubro, e reforçou o contributo da UA para a investigação análoga planetária e para a preparação de futuras missões humanas a Marte.
No plano científico, a missão testou múltiplos projetos interdisciplinares, incluindo mapeamento 3D do terreno, entrega aérea de suprimentos, cultivo de plantas em solos análogos a Marte, medições de dureza de materiais, equipamentos analíticos portáteis, monitorização sísmica e estudos psicossociais.
Um dos marcos mais significativos foi a primeira extração e quantificação de ADN realizada com sucesso em toda a rede WBA — um avanço histórico para a investigação análoga portuguesa. A experiência foi executada pelos astronautas análogos Rafael Rebelo, doutorando da Universidade de Aveiro, e Florence Basubas, sob coordenação da investigadora principal (PI) desta experiência, Ana Zélia Miller (IRNAS-CSIC, Espanha).
Além do impacto científico, a missão teve uma expressiva dimensão educativa: através de transmissões online, inspirou mais de 50 escolas e 2000 alunos em Portugal, Angola, Moçambique e Filipinas, incentivando o interesse pelas ciências espaciais.
Durante quase duas semanas de isolamento, os cinco astronautas análogos enfrentaram desafios de confinamento, pressão e incerteza. O “sol marciano” começava pelas 7h00 com verificações técnicas e planeamento das operações. As refeições, compostas por alimentos liofilizados reidratados com precisão, reforçavam a disciplina e gestão de recursos essenciais.
As atividades extraveiculares (EVAs) decorriam com fatos Delta, que limitavam movimento e visão, simulando o ambiente espacial. Durante cerca de duas horas, os astronautas realizavam amostragem geológica, voos de drone e testes de instrumentos. A comunicação com a Terra era restrita a um breve e-mail pessoal por dia, reforçando o realismo da simulação.
O equilíbrio psicológico e a cooperação foram determinantes para o sucesso da missão. O som constante da ventilação e o espaço reduzido do habitat criaram um ambiente autêntico de confinamento, exigindo resiliência e trabalho em equipa para manter a eficiência e o bem-estar coletivo.
Sob a liderança de Slavka Carvalho Andrejkovicová e Ana Pires (INESCTEC), a equipa do Controlo de Missão coordenou esta que foi a primeira missão análoga em Portugal a decorrer dentro de um habitat, assegurando também a comunicação com o centro de operações do Fórum Espacial Austríaco (OeWF), na Áustria.
A este propósito Gernot Grömer, da OeWF, salientou que “esta missão representa o espírito de cooperação internacional que impulsiona a investigação análoga em todo o mundo”, destacando que “a contribuição de Portugal através da estação de Monsaraz mostra como diferentes nações podem trabalhar em conjunto para preparar a humanidade para explorar novos mundos”.
A tripulação do habitat foi composta por cinco astronautas análogos internacionais, entre os quais Rafael Rebelo, doutorando da UA, que desempenhou o papel de oficial de ciência/geólogo planetário, contribuindo diretamente para a componente científica e operacional da missão. O grupo foi completado ainda por Pedro Pedroso (comandante da tripulação, controlador e supervisor de tráfego aéreo na NAV Portugal), Diogo Paupério (engenheiro de voo/especialista em robótica, investigador no CRAS, INESCTEC, Portugal), Florence Basubas (oficial executivo e médico, investigadora em Biomedicina e Biologia Espacial no Barcelona Institute of Science and Technology, Espanha) e Nadine Duursma (oficial de comunicações/suporte de engenharia, investigadora visitante no ESA Φ-lab, Países Baixos).
A organização envolveu a UA, o INESCTEC, o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, o IRNAS-CSIC (Espanha), o Observatório do Lago Alqueva e o NUCLIO, com apoio da Natixis e da Associação Os Montanheiros. A colaboração tecnológica com a CleverHive Space (Polónia) permitiu testar software de controlo de missão e o LeoRover, reforçando a ligação entre ciência e inovação.
Slavka Carvalho Andrejkovicová e Rafael Rebelo, não poderiam estar mais orgulhosos por terem representado a UA. Ao longo das duas semanas nasceram amizades, partilharam-se conhecimentos e criaram-se pontes de colaboração entre equipas e instituições internacionais. A missão terminou, mas as ligações criadas e a inspiração para continuar a explorar encontram-se mais fortes do que nunca, consideram.
Fonte/Foto: UA